Por que falamos tanta bobagem nas eleições? A neurociência explica.

Quanta agressividade, quantos “amigos” perdidos, quanta bobagem compartilhada nas redes sociais. A eleição parece ser um oceano de irracionalidade. Basta ver os comentários nos sites e facebook pra você ficar na dúvida se somos realmente da mesma espécie, se somos o tal animal racional. Por que é tão difícil usar a razão quando o assunto é eleição? Bom, claro que a neurociência não explica, mas acho que ela dá uma pista importante.

Por que tanto debate agressivo esse ano? Há algumas respostas pra isso. Podemos falar das fragilidades da escola (cada vez mais preocupada com mitocôndrias e segundos reinados) em ensinar o diálogo. Dialogar de fato não é fácil, há um monte de “habilidades emocionais” envolvidas, além de todas as outras que costumamos chamar de “cognitivas”. Mas culpar a escola é fácil, afinal, foi de lá que viemos. É como culpar a mãe, não serve pra nada, e ainda deixa as mães tristes.

Também podemos culpar o sistema político, o capitalismo, o comunismo, a Veja, ou a própria internet, onde muitas pessoas gostam de destilar seu veneno contra quem nem conhecem, enquanto sentam no quarto pra comer sucrilhos.

Ou talvez nem seja uma questão de culpa, porque a política é construída com “briga” mesmo, e briga não é uma coisa bonita de se ver. Em parte até concordo com isso, acho que a política nasce do conflito de interesses unido à vontade/necessidade de se viver junto. Portanto, o conflito é inerente à política. Mas e a razão? É muito pedir um pouco de racionalidade? E o respeito ao outro? Sem o olho no olho, sem a presença física, as pessoas perdem a linha. (veja a dica do Chico para lidar com o ódio digital)

Mas há uma outra resposta que me ocorreu enquanto via esse vídeo sobre neurociência e matemática, que cita um experimento muito curioso de psicologia comportamental.

É um experimento simples. O pesquisador mostra à pessoa duas fotos e pergunta qual ela acha mais atraente. Depois ele entrega a foto à pessoa e pede para ela explicar por que era mais atraente do que a outra. A pessoa explica. Até aqui, tudo bem. Mas o que ela não sabe é que o experimento não é sobre a atratividade das pessoas, e sim sobre o funcionamento da consciência. O mais incrível desse experimento é que o pesquisador, na verdade um mágico, entrega para a pessoa a foto que ela não escolheu – e ela nem percebe! Coisa de mágico, quem já viu um bom sabe que isso é fichinha pra eles. Quem quiser detalhes, pode ver o vídeo ou, melhor ainda, o artigo original, que saiu na renomada Revista Science.

Pois bem, a conclusão dos autores, confirmada por estudos posteriores, é que – toscamente dizendo – a nossa consciência busca explicações lógicas para uma escolha feita, mesmo quando não fizemos esta escolha! Há uma espécie de “vício explicador”, um mecanismo automático que encontra narrativas lógicas para qualquer que tenha sido a escolha feita (ou não) pela consciência. Os cientistas chamaram isso de “cegueira da escolha” (choice blindness).

Percebe onde quero chegar? Há  um culpado nessa estória toda que estamos ignorando até agora: nosso próprio cérebro!

Gosto de dizer aos alunos que muitas das nossas “ideias de girico”, de nossos pensamentos distorcidos, nossas alucinações desapercebidas, são na verdade culpa da evolução. Afinal, o cérebro não “foi feito” para pensar, e sim para mexer o corpo de forma coordenada e inteligente. Os neurônios estão, desde o início, intimamente conectados aos músculos.

Taí mais uma peça que nosso cérebro nos prega. Ele busca narrativas lógicas para as escolhas que fazemos – mesmo quando não fazemos. O que mostra o quão frágil é essa “lógica” pela qual a consciência tenta explicar suas próprias escolhas. (os Freudiano pira!)

Portanto, o formato “eleição”, onde existem duas opções que supostamente vão definir os rumos de milhões de pessoas, me parece ser o grande culpado da briga (pra inocentar nosso pobre órgão gelatinoso). Na hora de votar, você fica na dúvida, compara as informações que tem, as sensações, os sonhos, e acaba fazendo uma escolha que, no fundo, sabe que não vai fazer muita diferença na maioria dos casos.

Mas depois que a escolha foi feita, aí entram os bilhões de anos de evolução da circuitaria cerebral. Logo que alguém te pede explicações “mas porque você votou nesse cara?”, você já começa a tecer sua narrativa lógica, tal qual a pessoa no experimento, que tenta explicar porque achou bonita a foto que, na verdade, tinha achado feia.