Podemos “ler pensamentos” observando imagens computadorizadas do cérebro?

tomografia por emissão de pósitrons (PET)
tomografia por emissão de fóton único (SPECT)
Ressonância Magnética funcional (RMf)
Tomografia axial computarizada (TAC)

O que significa esse monte de imagens cerebrais que começou a inundar nosso cotidiano?
Os neurocientistas hoje dispõe de muitas ferramentas antes sequer imaginadas pelos curiosos sobre o cérebro e o pensamento humano.

Podem fazer imagens do cérebro em três dimensões, através de computadores que unificam informações obtidas por medições cerebrais em camadas (tomografia). As camadas podem ser imagens do fluxo sanguíneo, de atividade eletromagnética, ou simplesmente do formato do órgão, como na radiografia. Mas a maioria das imagens de atividade cerebral que chegam a nós está mais para o resultado de um cálculo do que a foto de um momento. Isto porque, em geral, as imagens mais esclarecedoras do funcionamento cerebral (compare as duas deste post) são obtidas pela unificação matemática de muitas outras, tipo soma e subtração. Não há qualquer problema nisso, muito pelo contrário, daí podemos imaginar muitas soluções. O que não podemos é confundir o resultado de um cálculo específico (escolhido por alguém) com uma foto. Confundir teoria com fato. Bem, dada esta introdução metodológica, continuemos.

foto do cérebro

Isto é uma “foto”

Tendo tantas ferramentas (materiais e simbólicas) para criar imagens cerebrais, os neurocientistas descobrem cada vez mais detalhes sobre os processos cerebrais. Detalhes muitas vezes impressionantes, até mesmo compreensíveis e úteis (se você investir algum tempo nisso).

Mas isso não quer dizer que estamos compreendendo o funcionamento do cérebro, que a neurociência atual tem um modelo adequado para explicar e articular seus diferentes fatos. Quer dizer apenas que já conseguimos fazer ótimas medições e cálculos, já conseguimos encontrar diversas correlações entre as médias de fenômenos psíquicos e fenômenos cerebrais.

PET-SCAN não é foto

Cada uma destas 6 imagens é o resultado
de “somas e subtrações” de muitas “fotos”.

Um curioso argumento para esta idéia me ocorreu durante visita dos nobres colegas Perê e Dinho. Correu a estória de que alguém estava fazendo uns estudos matemáticos para detectar o “estresse do ambiente”. Tipo assim. O cara media barulho, movimento das pessoas, coisas do tipo. Aí comparava momentos em que ele considerava haver estresse, partindo de algum critério. Com o tempo, e a análise matemática computadorizada, ele conseguiu fazer com que o computador detectasse os “momentos de estresse do ambiente” (segundo seus próprios critérios). Ou seja, ele adestrou o computador a classificar certos padrões coletivos de variáveis de forma semelhante à sua própria. Ensinou a máquina a imitá-lo.

Acho que dá para fazer muitas analogias entre o paragrafo anterior, sobre detecção do estresse ambiental, e a detecção de estresse cerebral. Tente você mesmo, volte um pouco e releia.

A primeira pergunta que me vem é: dizer que há estresse no cérebro é tão inadequado quanto dizer que há estresse no ambiente? Acho que sim.
Detectar melhor é o mesmo que compreender melhor? Não necessariamente.

Quando lemos que Nicolelis fez os macacos moverem braços mecânicos com o pensamento, quer dizer que dá para ver os pensamentos olhando o cérebro? Será possível, no futuro, fazer um download de suas lembranças? Acho difícil? Por que nem a primeira pergunta parece ser verdade. Fazer um braço obedecer adequadamente aos padrões cerebrais quer dizer que o computador, em certas condições, conseguiu ver o pensamento lendo o cérebro.

Esse “certas condições” é a palavra chave para entendermos o engano. A diferença entre uma lógica indutiva e uma dedutiva. Esquecer estas duas palavras é o que leva uma pessoa a afirmar mais do que realmente sabe, nem ao menos se dar conta. Ignorar as condições particulares de cada fato pode levar ao preconceito, por exemplo. Por outro lado, conhecer as condições dos fatos e os limites do racicínio pode levar belas construções humanas, como a ciência moderna.

Vamos então juntar os dois parágrafos anteriores, aplicando os princípios do segundo na concretude do primeiro.
Vejamos o beabá.
Fato: o computador leu adequadamente o pensamento do macaco vendo seu cérebro, em certas condições. Idéia generalizadora (de onde vem as leis científicas e o preconceito): o computador leu adequadamente os pensamentos vendo o cérebro do macaco. Generalizando ainda mais: o computador lê adequadamente o cérebro do macaco. Ou, por outra via de generalização: o computador leu adequadamente o cérebro dos primatas.

Ou seja: o computador sabe ler pensamentos de macacos ou sabe ler esses pensamentos desses macacos? Macacos de hábitos condicionados (talvez pensamentos também) cujos cérebros foram anteriormente analizados via computadores. A conquista de Nicolelis, mesmo com todas estas limitações, é um feito impressionante, admirável. Mas confundí-la com o início de uma tecnologia para “download de lembranças” é como tratar um urso de pelúcia como ser vivo.

Do fato à idéia, do olho à imaginação, as coisas ficam maiores, mais amplas. Mas para isso se preenchem de uma matéria inconsistente, pouco garantida, que pode dissolver-se no ar. A idéia nunca é tão garantida quanto o fato observado.

Acho que isso está acontecendo agora com a opinião pública sobre as ciências do cérebro. As pessoas olham aquelas imagens cerebrais bonitas e se satisfazem facilmente, como se estivessem sedentas por ver fotos do próprio pensamento. Mas volto a dizer, a maioria das imagens cerebrais não é foto, e sim o resultado de cálculos. Não é fato, mas idéia. E idéias com grande diversidade. A quantidade de informações detalhas e de teorias sobre o cérebro é impressionante, e em qualquer lugar que se olhe há muitas lacunas, muitos mistérios, muito caminho a ser percorrido até que a neurociência possa chegar próxima ao imaginário popular atual. As pessoas acham que se um computador “leu um pensamento de uma pessoa” então o computador pode ler pensamentos – detectando padrões cerebrais. Aí seria razoável pensar que ele poderá ler e arquivar tais pensamentos. Mas não é isso o que está de fato se desenrolando na neurociência atual.

Até aqui, tudo bem, são apenas reflexões, especulações. O problema é que confundir incerteza com certeza pode ser muito perigoso quando se vai tomar decisões. A fé cega numa ciência ainda prematura pode muitas vezes nos desviar do bom senso, testado e aprovado por gerações de pessoas tão inteligentes quanto nós. Um desvio que pode inclusive interessar aos acumuladores de capital. Enfim, por aí vai.

Bem, então o que dizer?

Cuide do seu cérebro, claro. Do corpo todo, do seu mundo. Mas isto não significa entrar no primeiro curso de “neuróbica” que aparecer no 011-1406. Ou comprar um chip de neuro-memória na Santa Efigênia de 2090. O cuidado com o cérebro, com a saúde em geral e mental, é uma antiga arte. Ou melhor, várias. Novos aprendizados aparecem a cada dia, mas é apenas com o tempo que eles se consolidam em sabedoria.

Não se deixe enganar pelas imagens. Use sempre a imaginação.