Os gritos agonizantes do machismo decadente

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Toda a ação tem sua reação. O pouco de “progresso” que tivemos recentemente gerou essa onda de “regresso” que tem dado tanto desgosto nos últimos meses. Na mira desta reação reaça estão quase todas as minorias (exceto, claro, o 1% de cima) e, curiosamente, uma maioria: as mulheres.

O machismo não tem o menor sentido e, ao mesmo tempo, está presente em praticamente todos os nossos costumes e instituições. Esse movimento todo do #primeiroassedio me impressionou bastante, porque a coisa é muito mais corriqueira e profunda do que imaginamos, ou queremos imaginar. Está sendo uma experiência, digamos, didática, ler minhas amigas relatando casos de assédio, às vezes com pessoas conhecidas, aparentemente “confiáveis”. Sinto imensa vergonha pelo gênero masculino, mas ao mesmo tempo não consigo evitar a sensação de que sou parte disso de alguma forma, seja rindo de uma piada, usando uma certa palavra, enfim, o machismo opera de forma silenciosa.

Por isso é bonito ver esse “movimento feminista” todo em reação ao avanço da direita de Cunha, seus comparsas, seus pagadores, e também seus eleitores. Aliás, adorei a manifestação das mulheres na última sexta feira. Aquele coro semi soprano, muito mais afinado, e com letras mais limpas, sem xingar a mãe de ninguém. Coisa fina, elegante 😉

meme machista tosco

E claro que, como reação a este belo movimento, a direita reage reativa, como é de sua natureza – veja o meme tosco ao lado. Por mim, nem daria bola para este meme, mas o fato é que vi ele no perfil de uma pessoa muito próxima. Por algum motivo, resolvi “responder” assim, publicamente, porque eu acharia impensável receber um meme desse de uma pessoa tão próxima, tão boa gente. Mas recebi. O mundo me surpreende, mas continuo tentando conversar com ele (o mundo).

Não sei bem se a pessoa compartilhou isso como “piada” ou como “expressão política” ou como “revolta pelo patrimonio público”, mas na verdade não importa muito. É apenas mais uma face incompreensível do machismo nosso de cada dia.

Pois bem, vamos ver o que a imagem nos diz. Ela nos diz que há uma ironia envolvendo os dois eventos na catedral da Sé. Eu traduziria a imagem, na cabeça dos que gostam dela, assim: as feministas reclamam dos homens e pixam a propriedade alheia, mas nesse mesmo lugar uma mulher foi salva por um homem. A ironia, portanto, busca mostrar que na verdade o feminismo não tem razão de existir (pois o homem protege a mulher), e inclusive é nocivo pois estragou um símbolo de São Paulo.

E por onde começar uma resposta a este tipo de pensamento, onde quase tudo está errado? Dá uma preguiça.. mas pra simplificar, resolvi fazer um “contra-meme” resgatando as informações malandramente ocultadas do leitor.

machismoidiota-contrameme

Sendo um otimista, tenho o curioso dom de ver coisas boas no mais fétido esgoto. Pois bem, a única fagulha de positividade que consigo ver nesse meme é o respeito à propriedade alheia, que é um princípio ético importante. Mas não é o único. Eu não pixaria a catedral da Sé e não acho certo que pixem. Gosto de uma cidade bonita. Mas quem se importa demais com vidraças e pixações pode estar perdendo o foco das coisas. Há pessoas vivendo na cidade, há muita violência, às vezes fatal, e há uma luta no campo do simbólico que não é de se desprezar, muito pelo contrário.

Veja bem, não é qualquer propriedade alheia, é uma igreja. Aliás, a principal igreja de São Paulo. A recente manifestação das mulheres tem como foco um projeto de lei que, na prática, dá ao estuprador o direito de ter um filho com qualquer mulher que queira. Esse absurdo incompreensível tem origem em debates sobre aborto e só está na câmara porque foi impulsionado por fundamentalistas religiosos – justamente no momento em que são colocados contra a parede por corrupção.

Mas muita gente não se dá conta do aspecto simbólico das manifestações. Outro caso parecido aconteceu no protesto contra a chacina de índios que está rolando de forma bizarra nos últimos meses. O pessoal terminou jogando tinta vermelha numa estátua na frente do parque Trianon. Contei para um familiar e ele mostrou séria preocupação… com a estátua suja! Nada de índios, nada de saber quem era o sujeito na estátua, apenas a tinta no patrimônio alheio. Bom, no caso, a estátua era de um bandeirante, acho que não preciso continuar, né?

Já falei demais. Hoje a semana é delas.

Viva as Simones e o bom voar!
(não resisti ao trocadilho)