O patrão do patrão

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Nada como um bom mergulho no sábado. Em São Paulo, isto quer dizer piscina, claro.

Enquanto terminava minhas braçadas, um homem sério repetia para seu filho: “vâmo, tiagô! A piscina tá fechando…”.

Homem sério, barba feita, moleton nos ombros, porte pouco atlético… um típico patrão, desses que gosta de mandar nos outros e ir no clube de vez em quando – mas não muito, para não atrapalhar a produtividade.

Bom, pode ser preconceito meu (tecnicamente é) mas tudo bem. O importante é a narrativa. Além do mais, se fosse para separar as pessoas em patrões e não-patrões, aquele senhor certamente se enquadraria na primeira categoria.

Sendo assim, vejamos: lá estava o patrão, já há uns 5 minutos, dizendo “vâmo tiagô”. Me alonguei calmamente, como recomendam os professores de educação física, esticando e torcendo para todos os lados. Numa dessas, de cabeça para baixo, vi o olhar feliz do garoto para mim, como que dizendo “olha só que legal, meu pai está me esperando!”.

Tudo bem, pode ser novamente preconceito meu. O garoto podia estar pensando apenas “ah, como é gostoso ficar na água”. Mas ainda assim haveria implícito algum pensamento inconsciente do tipo: “meu pai, que nunca me dá atenção mas diz que me ama, tem o dever de me esperar um pouco”. O que não deixa de ter sua razão.

Ou seja, minha conclusão não pôde ser outra: o patrão do patrão é o filho do patrão.

Saí da piscina, com um curioso riso redobrado, observando tiago se divertindo dentro da água.

Mas pensando um pouco melhor, agora, não sei há mais motivo pra rir do que chorar. Enquanto me delicio com uma suposta “justiça divina” recaindo sobre o pai de tiago, sinto tristeza pelo menino, o futuro patrão, e por seus filhos e subalternos.

Sinto pela estranha realidade que montamos para nós mesmos. Se o patrão do patrão é o filho do patrão, a modernidade é um mundo guiado de maneira imatura.