O capitão nascimento é o herói nacional?

Ontem conheci a tal tropa de elite. Um bom filme. Tenho críticas, evidentemente, mas acho que o filme introduz algo de novo no imaginário nacional. Espero que outras introduções venham a ser feitas nos próximos anos..

O filme articula diversos aspectos, bons e ruins, relacionados à vida de um suposto “bom policial”. Na verdade, do “bom soldado urbano” – afinal, ele não é exatamente um protetor da lei. Um soldado cujo inimigo é financiado (do seu ponto de vista) pela classe média (e alta, embora no filme ele fale apenas da média). Frio, bem treinado, inteligente, rápido, forte, sério, consciente da verdadeira situação das coisas. Afinal, diz ele na narração de fundo, “só a classe média com consciência social não percebe que guerra é guerra”.

E no final do filme, a classe média se ferra e ele consegue, a duras penas, seu objetivo final: fazer um substituto e sair da guerra, para ver se consegue reconquistar seu amor perdido. Perdido não porque ele era violento e, quem sabe lá no fundo, até gostasse disto. Mas porque era um bom profissional, um idealista, um patriota.

Eis o retrato perfeito de um certo ponto de vista sobre esta complexa questão que envolve o uso de drogas, a ilegalidade, a violência, a economia, a política e a própria natureza humana.

Por isto considero este um bom filme. Aqueles que quiserem elogiar a polícia encontrarão nele ótimos argumentos. Aqueles que desejarem criticar a polícia também perceberão, nas entrelinhas do filme, na análise mais profunda de seus pressupostos, muitos argumentos bons também.

Veja, por exemplo, a questão do “guerra é guerra”. Como assim guerra é guerra? A guerra é uma coisa dada ou uma coisa construída? De onde vem a guerra? Do consumo e alienação da classe média? Dos intereses do capital? Do moralismo da cultura? Da política americana no período das guerras? Da natureza humana? Precisamos entender melhor as causas desta guerra para poder acabar com ela. Não queremos soldados, queremos policiais ligados à comunidade. Nem o próprio capitão Nascimento, nosso herói, quer ser um soldado. Ele quer só voltar para o amor de sua esposa. Na verdade, o nascimento do filho de Nascimento é que muda seu ponto de vista. Agora ele não quer mais ser soldado, quer ser pai.

E qual é a diferença entre um soldado e um pai? Um soldado pensa “guerra é guerra”, diz “sim, senhor”, e deve até adquirir algum prazer em bater – já que faz isso tanto. Um pai, por outro lado, pensa “pra que tanta guerra?”, diz “eu te amo, meu filho” e deve até adquirir algum prazer em ajudar o outro – já que faz isso tanto. A principal diferença entre um soldado e um pai é que o soldado só pensa no aqui e agora. O pai por sua vez, o verdadeiro pai, é obrigado a pensar em décadas pra frente.

Volto a dizer, o filme é muito bom. Coloca claramente um ponto de vista. Se não tem tanta profundidade na análise, talvez seja para manter a superficialidade necessária à estética holiudiana – ou quem sabe seja a própria personalidade do personagem principal. Falta, agora, conseguirem fazer um bom filme (na mesma estética) sobre o ponto de vista do “bom policial” (dado que este é um filme do “bom soldado urbano”), do “bom traficante”, do “bom maconheiro”, da “boa prostituta”, do “bom político”, do “bom corrupto”, do “bom ladrão”, do “bom cidadão sonegador”, e por aí vai.

Quem sabe assim o imaginário brasileiro vai criando, com mais consistência, suas noções de bem e mal, compreendendo melhor a complexidade das questões humanas e a multiplicidade de pontos de vistas que deve caber em uma democracia. Quem sabe…