Final de campanha ou final de campeonato?

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Embora o futebol seja uma nobre arte do corpo e um respeitado símbolo nacional, temos que convir que em algumas circunstâncias o esporte bretão seja algo mais próximo da irracionalidade do que da virtude. Nas finais de campeonato, por exemplo, não é raro observar violência gratuita dentro e fora de campo. Chega a ser divertido ouvir as pessoas gritando palavrões pela janela quando alguém faz gol contra um desses times grandes. Nesses momentos eu sempre lembro da definição grega: o homem é um animal racional…

Afinal, por que razão você torce para o time X e não o time Y?

Esta pergunta não tem a menor importância no futebol, embora as pessoas defendam seus times com unhas e dentes. Também não faz muito sentido perguntar por que alguém gosta de rock e não de música clássica. Gosto não se discute. Mas na política esta pergunta é fundamental.

Por que você vota no candidato X e não no Y?

Cada um vai buscar sua resposta, se informar, discutir, ouvir o que os outros têm a dizer, para então escolher de forma consciente seu presidente. Certo?

Bem, infelizmente não é isso que se vê nesse final de campeonato, digo, campanha.

Demissão de jornalistas (Maria Rita Kehl, Gabriel Priolli e Heródoto Barbeiro), Sites/emails extremistas com ligações criminosas, excessos pessoais, milhões desaparecidos, discussões medievais sobre aborto, até Jesus Cristo entrou na roda. Os programas de governo (se é que existem) são sumariamente substituídos pelo marketing. Os candidatos falam o que os supostos indecisos querem ouvir.

Todo tipo de técnicas e falcatruas dominam o jogo. Afinal, gol de mão também vale, é até mais gostoso. Os dois partidos fecharem acordo em algum assunto torna-se, cada vez mais, uma utopia. Os grandes vencedores dessas eleições vem sendo, infelizmente, o obscurantismo e a intolerância fascista.

A campanha de 2010 parece ter tomado uma forma estranha, radicalmente bipolarizada, como uma final de campeonato. É uma briga de torcidas entre o sul e o norte do país, entre classes sociais. A racionalidade deixou o campo desde o começo do segundo tempo e já estamos na prorrogação. Os torcedores mais exaltados parecem movidos mais pelo ódio ao outro do que por amor à própria camisa. No twitter dessa semana, entre os tópicos mais citados no Brasil estavam as tags #SerraMilCaras e #DilmaNao.

Quando muitos estão votando mais contra do que a favor de algo, quando o debate público caminha décadas pra trás, quando a gente evita discussões políticas para não exaltar demais os ânimos, algo não está nada bem. As palavras “petista” e “tucano”, que já serviram para denotar alguma identidade, mesmo que duvidosa, hoje são simplesmente xingamentos, gritos vazios e furiosos das torcidas adversárias nesta final de campeonato, digo, de campanha.