Difusão e aprisionamento da informação: da democracia à alma

Algumas reflexões soltas para começar o ano com o pensamento livre.

Falamos muito em democracia e em sociedade da informação sem saber muito bem o que são essas coisas. Democracia é fácil de definir, simplesmente pela etimologia. Informação já não é tão simples (ou talvez seja simples demais). É uma daquelas palavras fáceis de se colocar numa frase mas difíceis de se definir. Como tempo, energia, razão ou amor.

Pensemos um pouco sobre a informação.

Sua tendência básica, como da energia, é se difundir, dissipar, espalhar-se pelo mundo, expandir sua existência. É sua pulsão mais primitiva. O que lhe dá mais prazer. Vamos partir deste pressuposto. Podemos também considerar que quanto mais verdadeira (ou adequada, ou informativa) for uma informação, mais facilmente ela se dissipará pelo mundo.

Numa suposta democracia perfeita, a informação se dissiparia com facilidade infinita, sem atrito, por sua própria natureza. Todos teriam acesso a todas as informações, o estado seria completamente transparente, e isso não seria algo tão difícil de se manter.

Nesta democracia, a economia deveria ser transparente também, pois as coisas se conectam. Assim, as empresas deveriam publicar em detalhes seus orçamentos, e os supermercados colocariam seu lucro nos preços. As pequenas e grandes empresas teriam chances menos desiguais, com mecanismos como a comparação de preços (e outras informações) por sites especializados da internet.

Muito bonito, tudo isso. Mas vamos voltar um pouco pro mundo.
É claro que existem forças opostas a esta pulsão básica, a tendência natural da informação a se espalhar. Existem forças que fazem as informações ficarem agrupadas em blocos, de maneira que só algumas se dissipem para o meio, enquanto outras ficam mais protegidas no miolo, sem contato com o mundo exterior. As informações secretas.
Faz algum sentido. Mas que exemplos teríamos desta idéia?

A patente é um. O direito privado à informação que estimula a criatividade e o empreendedorismo. Os sites privados são outro interessante exemplo, pois há pelo menos dois mecanismos para que alguém possa ganhar o acesso a conteúdos restritos. Um deles é pagando, claro. E o outro meio é por indicação de alguém. Há vários sites que funcionam assim, como as velhas seitas e sociedades secretas, por indicação de um membro do grupo. Aparentemente, são dois mecanismos bem sucedidos no mundo humano para se regular a dissipação da informação.

Todos estes exemplos seguem o mesmo princípio: ganhar na competição. Afinal, informação é condição básica para o conhecimento e conhecimento é poder. E se no mundo há competição, é preciso ter poder, ter algum conhecimento que o outro não tem. Os esquilos escondem nozes em lugares secretos, assim como os cães fazem com os ossos. As espécies de formiga apresentam diferentes padrões de comunicação por ferormônios, e um dos motivos talvez seja que o comportamento esteriotipado facilita o parasitismo. Lembro duma espécie de formiga que é “escravizada” por outra – ela imita os padrões hormonais da rainha, entra no formigueiro e mata a soberana original. A partir daí as as operárias cuidam dela e dos ovos, dando alimento e protegendo com a própria vida. No final, a espécie antiga é substituída pela nova no formigueiro. Isso me lembra, bem de longe, a busca por sistemas de codificação cada vez mais sofisticados na guerra, no mercado, na internet. Ou aquela prima que nunca mostrava seu “querido diário” pra mim.

A necessidade de continuar vivo num mundo onde existe competição leva os seres a guardarem informações importantes em lugares secretos, impedindo-a de se espalhar como queria. É o aprisionamento da informação.

Isso me lembra, por incrível que pareça, o princípio neurológico de Freud para a relação entre a quantidade de energia nos neurônios e a busca pelo prazer (agradeço às aulas do prof. Richard Simanke). A tendência natural do sistema é buscar o prazer, se livrar da energia, e portanto chegar a um nível zero de energia. Mas para estar vivo, o sistema precisa guardar um pouco de energia, pois a vida requer a estabilidade do organismo em um mundo instável. Assim, ele precisa de certa energia acumulada para momentos de necessidade, não pode depender apenas de fontes externas. Porque não dá para obter energia instantaneamente, como num passe de mágicas. Aliás, na maioria das vezes é preciso energia para se obter energia. A energia e a informação apresentam muitos paralelos…

Bem, que outras forças poderiam estar prendendo a informação, além do interesse egocentrado dos seres vivos?

Às vezes não falamos uma coisa para alguém porque achamos que a pessoa não vai entender direito. Outras vezes achamos que é melhor pra ela não saber certas coisas.

Nestes momentos estamos aprisionando a informação por motivos não necessariamente egoístas. O que isso significa? Não faço a menor idéia, mas sinto cheiro de que pode ser alguma coisa.

Ainda dá para lembrar outro tipo de barreira para a suposta tendência natural de dissipação da informação. É uma idéia mais radical, concebida pelo matemático e filósofo Leibniz (1646—1716) a chamada mônada. Como se sabe, Descartes imaginava haver duas substâncias no mundo (uma pensante outra espacial) misteriosamente comunicáveis no ser humano. Espinosa defendia a existência de apenas uma substância, a substância divina. Leibniz teve uma idéia mais maluca. Casa coisa teria uma substância própria. Uma mônada. E mais do que isso. Ele não aceitava a “comunicação misteriosa entre diferentes substâncias” como Descartes, então acabou caindo na conclusão lógica mais próxima. As mônadas não se comunicam. A aparente comunicação entre as coisas viria de uma pré-programação minuciosamente arquitetada por uma inteligência infinita no início dos tempos.

Algo do tipo, pois para entender direito os filósofos a gente precisa ler eles mesmos. O que não deixa de ser mais um exemplo do aprisionamento da informação. A sutileza do signicado das coisas. A necessidade de proteção do verdadeiro signicado, da verdade, não absoluta e eterna, mas real e enraizada em seu tempo. Como o mestre que sabe o quanto deve ensinar para cada discípulo, pois conhece as possíveis consequências de cada conhecimento que possui. Aí é preciso confiar no mestre, com o nível de explicação que ele resolve te dar, ou abandoná-lo.

A própria alma humana parece estar relacionada ao aprisionamento da informação. Pelo menos se concebemos a alma como uma espécie de “personalidade individual eterna e imutável”, com suas manifestações exteriores mas também seus segredos e pensamentos inconscientes. A experiência privada que cada um tem do próprio pensamento, sensações. Tudo isso leva à idéia de que a alma se fundamenta no aprisionamento da informação.

Mas outra maneira de pensar é que essa personalidade, esse ego, são ilusões a serem superadas. Ou ainda que se constituem, na verdade, em pontos do nosso ser que estão em intensa relação com o mundo à nossa volta. Quiçá com o universo. A alma, neste sentido, seria resultado de informações que vieram de diversos pontos do mundo, de onde se espalharam e chegaram até nós. Nossa alma vai se enriquecendo delas, se tornando mais nossa ao mesmo tempo em que vai se tornando mais cósmica.

Feliz ano novo. Que o tempo não seja reduzido a um nada entre um instante e outro.