Da rapadura ao biocombustível: onde fica o homem neste canavial?

Bons eram os tempos da rapadura, quando tínhamos a natureza sem precisar da ecologia…

Este pensamento já deve ter passado, em diversas formas, na cabeça de muita gente. Mas então nós pensamos nos milagres e confortos da tecnologia moderna e logo ficamos mais tranquilos de viver no início do século 21. Até porque ao final, enfim, sabe-se lá como andarão as coisas. E é oportuno lembrar que isto dependerá de nossos conhecimentos sobre o meio ambiente e de ações coletivas coerentes.

Mas, afinal, o que é ecologia? A ecologia é a ciência do ecossistema, ou seja, de um lugar com seres vivos. E um lugar com seres vivos nos propicia uma paisagem muito diversificada e dinâmica (embora possa parecer calma e tranquila ao observador despropositado). Isto porque os organismos se relacionam intensamente com o meio (e, portanto, uns com os outros). Eles precisam estar sempre retirando do meio a energia e matéria necessárias para alimentar o fogo da vida e manter sua estrutura material.

Não é a toa que a rapadura se tornou tão popular entre aqueles que precisavam de calorias rapidamente, como os trabalhadores braçais. Hoje, ao menos no “ideal burguês”, não somos mais nós que precisamos de energia extra, e sim os carros, computadores, geladeiras, chuveiros, guindastes, enfim, coisas que tornam a vida mais agradável. Máquinas que trabalham por nós. Milagres da tecnologia. A rapadura, antigo alimento das pernas, deixou de ser popular, e os canaviais passaram a produzir alimento para os carros, como o álcool e biodiesel. Mesmo sua doçura já não pode mais competir com o açúcar refinado, cristalizado, orgânico, dietético, etc.

Já se foram os tempos da rapadura, onde a doçura nem era tanta, mas a terra ainda farta de vida. O bruto dá lugar ao puro. Chegou a era do açúcar, do carro, do biocombustível e da diabetes.