Crise e corrupção: ouviu alguém falando sobre reformas?

O pior vai ser se toda essa crise “terminar” e não houver nenhuma reforma minimamente profunda voltada para o combate à corrupção. Porque é importante tratar os sintomas, mas as causas são o que importa a longo prazo. E o pensamento a longo prazo é uma das coisas que nos faz humanos, não é verdade, por que desperdiçar essa dádiva da natureza?

Tá bom, você pode dizer “cara, você é muito otimista, é óbvio que vai terminar tudo em pizza”. E provavelmente você está certo. Tive essa preocupação enquanto lia dois artigos do El País sobre o surrealismo político que vivemos nesses dias.

Um fala sobre o populismo jurídico de Sergio Moro e sua inspiração em uma operação policial italiana que só tratou os sintomas, deixando as causas da corrupção como estavam:

Moro nunca escondeu suas inspirações. O juiz da cidade paranaense de Maringá, de ascendência italiana, escreveu longo artigo sobre a Operação Mani Puliti (Mãos Limpas), realizada na Itália na década de 1990 e que terminou com dezenas de políticos presos, mas não com a reforma do sistema político italiano. No texto do juiz formado no Paraná e com estudos em Harvard, um ponto central da argumentação era o caráter estratégico do apoio popular numa investigação desta envergadura. Pode-se ver claramente como isso foi utilizado nos 24 meses de Lava Jato, tanto por Moro quanto pelos procuradores que lideram a investigação. As inúmeras fases da operação foram acompanhadas de coberturas igualmente monumentais. Na maior parte dos autos e delações não havia sigilo e a imprensa poderia ser alimentada diariamente com novos desdobramentos. Gil Alessi: “Sérgio Moro, de ídolo anti-PT à berlinda por ‘populismo jurídico’”

Peixes grandes, apoio popular, cobertura da mídia, delações e vazamentos. Qualquer semelhança não deve ser mera coincidência.

O outro artigo fala da falência do PT e de Lula, mas não pelos motivos normalmente evocados:

O problema do PT não é a crise econômica, a desordem internacional ou sequer o fato de o partido ter participado do processo político brasileiro com os seus históricos e anteriores mecanismos de corrupção interna. O problema é ter feito parte disso e não ter politizado o problema, não ter buscado uma solução, não ter proposto reformas. Tales Ab’Saber: “Impeachment artificial faz Brasil abrir fraturas expostas a cada dia”

Não seria lindo se o governo fizesse agora um super pacote anticorrupção como resposta à crise? Bom, na verdade, ele já fez em 2013. Voltou a propor no ano passado. Algumas leis do pacote, inclusive, estão zanzando pelas gavetas do congresso desde 2005.

Mais informações sobre o pacote anti corrupção (re)proposto pelo governo Dilma e engavetado pelo congresso: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/03/dilma-encaminha-ao-congresso-nacional-pacote-anticorrupcao.html

PS: obrigado ao querido Tadeu Lara, que me mostrou o link acima, contrariando minha noção anterior de que o governo não tinha proposto nenhuma reforma mais profunda nas causas da corrupção.