Crença religiosa estaria relacionada a QI baixo – como criticar conclusões deste tipo?

Mais uma polêmica no reino da ciência estatística. Diz a BBC:

Um artigo de pesquisadores europeus, que será publicado na revista acadêmica Intelligence em setembro, defende a tese de que pessoas com QI (Quociente de Inteligência) mais alto são menos propensas a ter crenças religiosas.

O texto é assinado por Richard Lynn, professor de psicologia da Universidade do Ulster, na Irlanda do Norte, em parceria com Helmuth Nyborg, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e John Harvey, sem afiliação universitária.

Lynn é autor de outras pesquisas polêmicas, entre elas uma sugerindo que os homens são mais inteligentes do que as mulheres.

A conclusão é baseada na compilação de pesquisas anteriores que mostram uma relação entre QIs altos e baixa religiosidade e em dois estudos originais.

(…)

Uma das hipóteses que o estudo levanta para tentar explicar a correlação entre QI e religiosidade é a teoria de que pessoas mais inteligentes são mais propensas a questionar dogmas religiosos “irracionais”.”

Pois é. Devemos estar sempre abertos a novas idéias e descobertas. Mas é bom ter cuidado, porque as correlações estatísticas podem gerar preconceitos. Poderíamos concluir, por exemplo, que este estudo sugere que acreditar em deus é um sinal de burrice. Ou que a ciência está em eterna luta com a religião.

Mas afinal, podemos contrariar estas “conclusões cientíticas”? Claro, caso contrário, nem seriam científicas. A questão é: sabemos como fazer isso?

Vejamos. Para aquecer, podemos evocar outros estudos. Tem um na revista viver mente e cérebro dizendo que judeus tendem a ser mais inteligentes que outras pessoas. Bem, a religiosidade é uma característica desta cultura, o que seria mais uma exceção à conclusão do estudo (além das descritas no próprio). Mas não queremos nos fundamentar neste tipo de pesquisa, pois é justamente o que estamos buscando criticar: a conclusão prematura, a generalização, o “preconceito cientificamente comprovado”.

Seria, então, oportuno perguntar: o que é inteligência? O que é religiosidade? Quais os conceitos que estão por trás das amostras e análises dos autores. Este é, em geral, o ponto crucial numa pesquisa deste tipo, sobre características psicológicas.

Vamos nos limitar à inteligência, a fim de evitar discutir o conceito de deus, uma coisa ainda mais controversa. Para os autores, a inteligência pode ser medida por testes de QI. Este pressuposto não é consensual entre os estudiosos da inteligência. Dentre os contrários a esta visão estão Howard Gardner (autor do livro Inteligências Multiplas) e Daniel Goleman (Inteligência emocional). E como escreve Sidarta Ribeiro:

A capacidade de encaixar blocos de madeira ou realizar operações lógicas indica adaptabilidade a problemas desse tipo. Muitos outros tipos de inteligência existem, e para eles o teste de QI não serve.

Da mesma forma poderíamos questionar o conceito de religiosidade utilizado no estudo. Pois bem. Mas que outro tipo de crítica se pode fazer a este tipo de estudo? Bom, quando se encontra uma correlação, não necessariamente se encontrou uma causa. Isto qualquer iniciado em estatística deve saber.

No próprio artigo da BBC é feita uma crítica neste sentido, sugerindo que a correlação encontrada pode ser gerada indiretamente por outro fator, a educação. Veja só:

O professor de psicologia da London School of Economics, Andy Wells, porém, levanta questões sobre a tese.

“A conclusão do professor Lynn é de que um QI alto leva à falta de religiosidade, mas eu acredito que é muito difícil ter certeza disso”, afirma.

De acordo com Wells, vários estudos já demonstraram que pessoas com níveis de QI altos tendem a ter níveis de educação mais altos.

“E quanto mais educação as pessoas têm, é mais provável que elas tenham acesso a teorias alternativas de criação do mundo, por exemplo”, afirma Wells.”

E a educação atual não dá só acesso a outras teorias. Ela é uma verdadeira apologia à ciência, uma constante doutrinação contra “antigas crenças”, negação de tudo que não se pode medir. Aí podemos compreender um pouco melhor a correlação encontrada.

Com isto, concluímos nosso pequeno tutorial. Lições do dia:

1- Os conceitos usados por cientistas podem ser mais consensuais, comuns a todos, ou mais questionáveis. Todas as conclusões que se tira partindo de conceitos questionáveis sao também questionáveis. E nem sempre os cientistas (ou jornalistas) avisam quando os conceitos são mais “fracos”.

2- Uma correlação não implica numa relação de causa e efeito, embora nosso “instinto cognitivo” muitas vezes faça automaticamente esta passagem. A mídia e a propaganda se utilizam disso com muita eficiência.

3- A escolha da amostra (quantidade e qualidade) também é importante numa leitura crítica de conclusões científicas. No caso deste estudo, parece não ser um ponto problemático.

OBS 1: Mesmo com todas as críticas, este estudo certamente tem algo a dizer (como tudo no mundo). O que ele está dizendo, no entanto, é outra estória.

OBS 2: Meu deus é o deus de Espinosa (frase que, se não me engano, foi dita por Einstein)