Câmara quer censurar CQC depois de ser reprovada no controle de qualidade

O CQC desta segunda-feira foi realmente digno de uma centésima edição. Repercussão especial foi para o “controle de qualidade do congresso”, uma ideia espetacular, deve ter até político estudando mais para não ser pego de surpresa pelos CQCs.

Tudo que queremos é um bom congresso, é pedir muito? Se tudo que é meio importante tem um controle de qualidade, por que o congresso deveria ficar de fora?

Nelson Trad (PMDB de Mato Grosso) logo antes de esmurrar a câmera. Depois disse: "FODA-SE"

Aliás, dá pra ter uma ideia de como é boa parte da classe dominante desse país vendo como eles reagem aos CQCs. Como esse coronel de Mato Grosso, Nelson Trad (PMDB de Sarney). Depois de assinar um projeto para inclusão de cachaça na cesta básica, quase esmurrou a Monica Iozzi, isso em frente das câmeras. Imagina o que ele não faz em Mato Grosso. Suas palavras no momento: “foda-se”. Logo depois, ele explica que:

“Não tem necessidade de eu pedir desculpas aos meus companheiros, porque eu reagi legitimamente em defesa da minha dignidade. Não defendo só a mim, mas a própria instituição a que pertenço há mais de 30 anos”.

Se era pra tentar parecer digno, por que assinou a lei da cachaça? Se o fez, por que não assumir o erro, não seria mais digno? Aliás, no que um murro e um “foda-se” ajudam na dignidade? Caro deputado Nelson Trad, existem maneiras muito mais eficazes de ser/parecer digno.

E o CQC foi bastante democrático em sua crítica “humorística”, tem deputado de vários partidos assinando a tal lei de inclusão da cachaça na cesta básica. Quando Monica explicou aos deputados o que tinham feito, alguns apelaram para a violência, como nosso ilustre Nelson Trad, outros apelaram para a retórica, mostrando que ainda têm profissionalismo político: “você não pode discriminar o trabalhador que gosta de tomar uma cachacinha depois do trabalho”. Tá certo.

Outro coronel que impressionou foi o excelentísssimo deputado José Tatico (PTB de Goiás). Logo que percebeu a burrada que tinha feito ao assinar a lei da Cachaça ficou quieto.

Assessor manda-chuva fazendo corta-luz para deputado-coronel

Seu acessor começou a xingar a repórter de ignorante, coisa e tal. Ela insiste: “O deputado não vai responder nada?”

“Não vai não. E aí? E aí?” responde o acessor manda-chuva, como se estivesse falando com um mano no subúrbio de Goiás, “chamando pro pau”.

Monica insiste mais um pouco e o deputado finalmente resolve falar alguma coisa:

“Sei da sua BUNDA”

José Tatico (PTB de Goiás): "Sei da sua BUNDA".

Sim, é isso mesmo que você ouviu. Não se trata de uma novela mexicana ou uma tragédia grega, esta é a casa do povo brasileiro. É Impressionante, não? Pessoas votaram nesta pessoa. Para os vestibulandos desse ano que ainda não entenderam o que significa “coronelismo”, aí vai uma aula extra. Este é um legítimo coronel, com ar de “ninguém me atinge”, com palavras violentas e, é claro, um acessor manda-chuva que resolve seus problemas mais escabrosos. Como algumas meras perguntas do CQC.

Pois é, depois de tudo isso, seria de esperar que o povo brasileiro ficasse constrangido. Mas, segundo a Folha, o presidente interino da Câmara, Marco Maia (PT-RS), SE SOLIDARIZOU com os nobres colegas coronéis, e agora está estudando normas para evitar constrangimento dos parlamentares.

“Ao não querer falar, o deputado é constrangido pelos veículos de comunicação. Há excesso por parte de alguns jornalistas. Temos de tomar algumas medidas institucionais”. Bem, convido você a ver o vídeo mais abaixo e julgar por você mesmo quem teria cometido excessos.

Pois bem, caro Marcos Maia, alguém precisa te contar que estas normas já existem e se fundam no decoro parlamentar. Se os nobres deputados, mesmo sem ter feito a lição de casa, tivessem mantido o mínimo de compostura, não estariam agora na boca do povo. Aliás, falar da bunda de uma moça da imprensa não é quebra de decoro parlamentar? E esmurrar a câmera? Dizer foda-se? Bom, na verdade, com tudo que já vimos por aí, isso realmente não é nada.

Bem, para terminar com um final feliz, o CQC nos mostrou que tem gente trabalhando com seriedade no congresso, como o deputado João Dado, do PDT Paulista, o único que não assinou a lei da cachaça. Sua explicação é clara e cristalina.

Dep. João Dado (PDT-SP): "O correto é isso, ler antes de assinar. E mais do que ler, é concordar com o que está assinando."

Simples não? É pedir muito?

O controle de qualidade do congresso é, de fato, um quadro excelente, só tem a contribuir com a democracia.

MAIS CQC E MENOS CORONEL!

Vai Brasiil!

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Veja o programa abaixo:

* Escrito com informações do CQC e da Folha – Câmara recomenda normas para evitar constrangimento de parlamentares por jornalistas – 17/06/2010.