A tessitura do Homo sapiens

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Tessitura, aprendi recentemente, é a abrangência de um instrumento musical, vai da nota mais grave que ele é capaz de emitir, até a mais aguda. O piano, por exemplo, tem uma ampla tessitura, abrangendo umas sete oitavas, enquanto a do violão não chega a quatro. A do Bobby McFerrin, ao que parece, é como a do piano.

Mas e se trocássemos as notas pelos comportamentos animais? Imagino que a tessitura de uma formiga não deve incluir muitas “oitavas de comportamento”, assim como de uma água viva. Um polvo ou um ornitorrinco, por outro lado, já devem ter uma variação maior nos tipos de comportamento que podem produzir. Aí surge, é claro, a pergunta: qual é a tessitura da espécie humana?

Bobby McFerrin e sua filha Madison, no Ibirapuera

Bobby McFerrin e sua filha Madison, no Ibirapuera

Ontem tive a oportunidade de presenciar o amplo espectro que compõe a tessitura humana. Show do Bobby McFerrin, mestre dos mestres na arte musical e, ao que parece, um excelente pai – como se deduz ao ver e ouvir os dois cantando lindamente Jorge Ben e outras milongas. No palco, Bobby e sua banda nos mostravam os limites sem limites de nossa espécie, as notas mais altas que somos capazes de produzir, singularidades de beleza a dar inveja aos deuses. Ao mesmo tempo, outros representantes do Homo sapiens não nos permitiam esquecer do neandertal que habita cada um de nós.

Três infelizes elementos da espécie teimavam em ficar de pé enquanto todos os outros já estavam sentados, mesmo depois do microfone explicar que a regra do local era ficar sentado. Pessoas gritavam “senta, senta”, neandertais apelavam “senta, FDP”. Os três infelizes desdenhavam da massa, fazendo ameaças e cara de mau. Não tardou a alguém ir em direção a eles, a principio de forma “pacífica” (creio eu), mas logo veio a barbárie. O sujeito que chegou aplicou uma gravata em um dos infelizes, não sei bem porque, ao mesmo tempo em que algumas pessoas começavam a levantar sem cara de boas intenções. Um dos três começa a socar o sujeito que dava a gravata, enquanto a multidão gritava seus “uga bugas” ao redor da confusão.

Bom, certamente essa não é a nota mais baixa capaz de ser emitida pela espécie humana, até porque no final a própria multidão tratou de acalmar a si mesma, e depois de minutos estavam todos assistindo ao show tranquilamente. Mas pra mim foi um momento emocionalmente intenso, não apenas por sentir a proximidade da violência física e a agressividade cega da massa, mas também pelo contraste. Pelo contraste entre o sublime, o divino que estava logo ali no palco, e o grotesco, a violência gratuita, tanto do indivíduo quanto do coletivo. Quando terminou, entrei em prantos sem saber muito porque, mas agora sei o que foi: tive uma experiência concreta da tessitura do Homo sapiens, da nossa incrível capacidade de sermos divinos e grotescos.

Depois do show, ficamos discutindo quem estava certo, se eram todos igualmente idiotas ou se havia graus de idiotice, se seria melhor ter deixado os três em pé, se era uma questão de direitos individuais ou coletivos, enfim… perdemos um bom tempo tentando digerir as notas mais baixas da espécie, e só depois me dei conta de que havia presenciado o mais belo show de música da minha vida, sentado na grama na companhia dos amigos.

Em tempos acalorados como os que vivemos agora, em que o mundo se volta para o Brasil, em que multidões vão às ruas, eleições chegando, debates políticos transformados em fofoca de cumadre, em que “justiceiros” e linchamentos se multiplicam, é preciso que a gente se lembre não apenas de quem somos, mas de quem podemos ser, de quem queremos ser. É preciso escolher em qual faixa da tessitura humana existiremos em nossos gestos cotidianos.