Ouça a mensagem maquiavélica da Claro

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Dia desses, ao ligar para o celular de um amigo, me deparei com mais uma absurda manifestação do capitalismo selvagem brasileiro. Disse a moça, com a voz doce de uma professora do primário:

“Você está no Claro Recado e esta mensagem é gratuita. Grave sua mensagem que vamos entregá-la gratuitamente e você só paga a ligação após o sinal (bip). Grave sua mensagem (bip)”

OBSERVAÇÕES:
A voz macia, agradável, confiável e didática encobre a enganação. São dois longos “gratuitos” para um único e curto “só paga”. Há dois bips, por algum motivo desconhecido.

Veja que obra de arte da burrice humana! Que tipo de empresa poderia ser tão suja para ganhar alguns centavos a mais das pessoas? Todas, praticamente. Por sua própria natureza. Mas a pergunta é: que país permitiria a uma empresa fazer coisas como essa? Que pessoas vivem nesse país? Como nós permitimos isso?

Partindo de minha própria experiência posso imaginar alguns motivos. Nos adaptamos ao nosso cotidiano, esse é um motivo geral. Mas vamos mais a fundo. A adaptação pode ser entendida como uma reação do ser a eventos/características do meio. Aí é um processo passivo, natural, que pode ir distanciando nossos valores da prática. Embora ninguém (aquele “ninguém” biológico) goste de ver sofrimento e pobreza, quem vive no centro de uma cidade grande raramente se sensibiliza com o que vê. É a busca do próprio corpo pela felicidade. A mesma busca que nos leva a evitar as “burocracias cotidianas”, como pequenas taxas, alguns centavos ou as letras miúdas de um contrato ou propaganda. Evitamos essas coisas porque queremos ver beleza, não feiúra, queremos usar nosso tempo para coisas agradáveis, não ficar fazendo contas chatas. Mas é justamente nesses pequenos detalhes que somos cotidianamente afetados pelas pessoas que resolveram mergulhar nas burocracias, cálculos e detalhes, justamente para ganharem mais dinheiro.

Não nos damos conta das pequenas e cotidianas formas de exploração humana, seja porque temos preguiça, seja pela pouca familiaridade com o pensamento crítico, desconhecendo assim as diferentes maneiras de uma pessoa enganar a outra.

Este post tem, portanto, esta finalidade didática para o cidadão, dando um exemplo de maquiavelismo empresarial cotidiano. Uma coisa contra a qual todos os países têm que lutar, e que nós fazemos muito pouco. Pelo menos eu tenho esta impressão. Porque se a gente fosse minimamente crítico, chato, lutador, inteligente, não creio que estaríamos sujeitos a ouvir um recado como esse ao ligar para um amigo. Precisamos, como brasileiros, praticar mais a tal de cidadania. A adaptação ativa, o poder de transformar o meio em função do organismo (ao contrário da adaptação passiva), através da qual a espécie humana pôde sobreviver.